by: dorothea rempel

Vejo Poesia! – Drummond + a Noite

"Passagem da noite" - Carlos Drummond de Andrade

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Pitécos pessoais... :)

A beleza de um novo dia, escondida em sutilezas, pode por vezes nos passar despercebida. Concentramos-nos em nossos dissabores e esquecemos que os segundos não voltam.

Na poesia acima, Drummond retrata o que podemos sentir ao final de um dia corrido: um cansaço imenso, quase morte. Tudo o fica meio sem sentido, desconexo, largado. Sentimos-nos largados, soltos aos comandos do nada.

Mas, o que seria saciedade se a gente não sentisse fome? E do descanso, se o sono não fosse necessário? E da alegria, se não tivéssemos momentos tristes para superarmos? O dia que surge, o sentido que com a manhã renasce! Bicicletas, flores, pessoas, pão com café e muitas cores!

Por momentos ensolarados ou cinzentos, o essencial é viver: vivamos!

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